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Agroecologia e Mudanças Climáticas: é possível reverter o jogo?

Por Clara Camargo, Anna Carolina Santana e Leonardo Menezes

A falta de água que vem assolando o estado de São Paulo é um dos sintomas do que a comunidade humana vem chamando de mudanças climáticas. Não apenas esse evento climático isolado, mas inundações, furacões, desastres naturais, temperaturas elevadas ou muito baixas, inconstâncias e imprevisibilidade do clima, dentre outros acontecimentos são os principais sintomas dessa crise que passamos no mundo todo.

     Cientistas afirmam que isso é consequência da quantidade de gases de efeito estufa que são emitidos pelas atividades antrópicas, como o uso de combustíveis fósseis no transporte e na agricultura, industrialização, desmatamento, entre outras fontes. Esses problemas vêm se agravando a cada dia e, de acordo com o IPCC, as três últimas décadas foram as mais quentes desde 1850. O aumento da temperatura entre a média do período 1850-1900 e a média do período 2003–2012 foi de 0,78ºC, o que já impacta violentamente a vida na Terra. Se as emissões continuarem seguindo as tendências atuais, o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 4,8ºC até 2100 enquanto a meta era limitar a 2ºC. Isso significa que efeitos perversos se tornarão mais frequentes e com consequências em todos os componentes do sistema climático, com graves repercussões sobre o bem estar da humanidade, principalmente dos mais pobres,  e de todas as outras formas de vida.

O que percebemos então é que esse tema é político e social antes de tudo, porque diz respeito aos modelos de desenvolvimento que estão postos, no qual o sistema-mundo moderno capitalista, ao mesmo tempo em que gera inúmeras inovações materiais e amplia a sociedade de consumo, também estimula a produção desenfreada e desigual que os diferentes países fazem dos recursos naturais. Os países do Norte político, chamados “industrializados” ou “des-envolvidos”, emitem GEE’s (Gases de Efeito Estufa) há muito mais tempo, pois desde o início da Revolução Industrial, no século XVIII, dependem de combustíveis fósseis; além de haverem desmatado grande parte de sua vegetação natural, o que representaria a manutenção do estoque do carbono. E para chegarem a seu “status” atual de superioridade frente aos países do Sul, exploraram as inúmeras riquezas naturais destes outros, assim como transformaram suas populações em mão-de-obra barata e mercado consumidor, colocando-os em um sistema de dependência, expropriação, e exploração acelerada, a fim de competirem no mercado internacional. Neste sentido, reduzir emissões de carbono significa reduzir, parar, ou até mesmo inverter o modelo de crescimento econômico baseado nos padrões capitalistas de produção, comercialização e consumo linear e desenfreado.

Além disso, vivemos também uma crise social, pois, de acordo com o Banco Credit Suisse, 1% da população mundial controla 48% da riqueza do planeta, enquanto quase 70% da população possui 3% da riqueza, o que tende a se intensificar nos próximos anos. O aumento da produção de lixo, o uso e dependência de cada vez mais das matérias-primas e de combustíveis fósseis amplia o desmatamento das florestas, expulsa os povos tradicionais e as comunidades camponesas, concentrando cada vez mais as riquezas e crescendo as disparidades entre os ricos e os pobres. Isso significa que o modelo de desenvolvimento capitalista traz benefícios para muito poucos e danos para todos os outros modos de vida, assim como para a nossa própria Mãe-Terra.

No sentido de reconhecer as assimetrias que existem entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, foi criado o conceito de responsabilidades comuns, mas diferenciadas, responsabilizando diferenciadamente os países, delegando mais reduções àqueles que, há mais tempo, exploram ao longo da história. Porém, os Estados não conseguem chegar a um acordo e a sociedade civil não pode participar com voz dessas instâncias. Não podemos seguir enquanto países em desenvolvimento o mesmo padrão que os países ricos seguem, precisamos acreditar nas estratégias nas quais trabalhamos e seu potencial transformador.

A fim de buscar soluções frente a estas questões, em 1995 nasce a COP (Conferência entre as Partes), onde cerca de 200 países vêm se reunindo com objetivo de discutir e realizar um acordo global, que delegue um compromisso por parte dos países, em que estes assumam uma postura e construam ações para enfrentar os problemas ambientais decorrentes das mudanças climáticas. Um dos acordos mais conhecidos oriundo destes encontros foi o Protocolo de Kyoto, 1997, no qual Japão, União Européia, e Estados Unidos (EUA), se comprometeram a reduzir as emissões de carbono em 6%, 8% e 7% respectivamente. Mas em 2001 os Estados Unidos se retiram e o protocolo passa a ser deslegitimado. Neste encontro também, diversas outras ações já se apresentaram como possíveis soluções, entre elas: medidas compensatórias, incentivos ao mercado de carbono, criação de um fundo verde; mas, como se observa, de fato, estes encontros não têm chegado a um acordo comum e nem encontrado soluções realmente eficientes para romper as inércias necessárias à mudanças no padrão de produção e consumo. Faltam também, por parte dos governos, mecanismos que garantam o controle e a participação social, fator que providenciaria uma expansão democrática e garantiria a entrada das necessidades e interesses da sociedade civil, tanto organizada em ONG’s, movimentos sociais e sindicatos, quanto não organizada.

        A COP 20 que se realizará no início de dezembro em Lima-Peru, está se aproximando e novamente representantes dos governos se reunirão para discutir o futuro das economias frente a estas problemáticas. Diante desse cenário, o governo da Venezuela realizou a “PreCOP Social – Cambiando el sistema, no el clima” entre os dias 04 e 07 de novembro de 2014, numa tentativa de reunir representantes da sociedade civil internacional organizada; a fim de realizar uma consulta e construir um documento em conjunto, para debatê-lo e apresentá-lo em um espaço junto aos representantes governamentais.

Neste encontro estavam presentes cerca de 80 organizações, entre elas: ambientalistas, sindicatos, movimentos camponeses,  de mulheres, indígenas, jovens, etc; e cerca de ministros e autoridades de mais de 40 países de todo o mundo. Nos primeiros dois dias, as entidades debateram com os representantes do governo Venezuelano, com base em um documento previamente preparado,  denominado de “Declaración de Margarita”, no qual se dividia em três partes: “Governo local frente à Mudança Climática”, “ O Futuro toma a palavra: Juventude e Mudança Climática” e “ O Bem-Viver, Vida Sustentável, e Mudança Climática”; resultado de uma reunião realizada na Isla Margarita, durante os dias 15 e 18 de Julho. Nas sessões que se seguiram na reunião, as entidades se reuniam e apresentavam pontos específicos, para que fossem adicionados ao documento final que, posteriormente, seria debatido com os outros representantes governamentais.

É importante ressaltar que a sociedade civil nunca teve voto, nem voz, nas COP’s o que torna as discussões mais focadas nos impactos econômicos do que nas propostas de mudança. Portanto a PreCop Social foi de fundamental importância e devemos lutar para que se oficialize como um canal direto de diálogo entre os Estados e a sociedade civil, assim como devemos lutar para que os Estados ampliem a participação e o controle social nas tomadas de decisões.

 

O Instituto Giramundo Mutuando, representante da Articulação Paulista de Agroecologia, em parceria com a Coalizión de los Pueblos por la Soberania Alimentaria, participou deste encontro, e como representante brasileiro levou questões e demandas que perpassam nosso cenário nacional de conflitos socio-ambientais. A Agroecologia continua sendo para nós a grande estratégia de combate às mudanças climáticas, pois não é apenas um conjunto de técnicas que visa resolver problemas de produtividade agrícola, é um novo modo de pensar as relações dos seres-humanos com a natureza e o meio-ambiente, que resgata valores culturais tradicionais integrando com as atividades de pesquisa e desenvolvimento, resgatando a segurança e a soberania alimentar, estimulando a biodiversidade, e promovendo a saúde do meio ambiente e de quem o habita.

Acreditamos que as falsas soluções que reproduzem o sistema predatório sem efetivamente mudá-lo, como o caso dos mercados de carbono, não são a transformação necessária. No entanto, isso só faz sentido se nos articulamos em redes para transformar o mundo em um espaço mais justo e sustentável.

É preciso que as responsabilidades sejam assumidas por todos: pelos Estados em todas as suas instâncias, pelas organizações da sociedade civil e também por nossas ações individuais, seja por meio dos compromissos e acordos globais, seja ampliando os canais de participação e controle social nas tomadas de decisão, seja articulando e ocupando os diversos espaços públicos. Outra forma é mudar a nossa postura frente ao viver em sociedade: a nossa postura ao consumir, a relação que estabelecemos com os alimentos, com a terra, com nossos colegas e com todas as formas de vida, de maneira que nossa prática esteja cada vez mais aliada ao discurso!

 

Seguimos na luta!

Há braços Agroecológicos!

Saiba mais:

História das Cop’s: http://www.terra.com.br/noticias/ciencia/infograficos/cops/

Preparatorios para PreCop: http://www.enlazandoalternativas.org/spip.php?article1209

Declaração de Margarita: http://redmasvos.org/novedades/declaracion-de-margarita-sobre-cambio-climatico

Coalicion de los Pueblos por la Soberanía Alimentaria: http://alainet.org/active/69359

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Sarau Ecológico no Giramundo!

Pessoal,
No dia 27, realizaremos o Sarau Ecológico, no Instituto Giramundo, um espaço de trocas de saberes e sabores e de vivências para um mundo mais sustentável!
A ideia é começar a praticar, de forma simples, o consumo consciente, nos aproximar por meio da arte, da alimentação e da consciência de que juntos podemos construir novas relações econômicas, sociais, culturais e ambientais!

Programação:

16 h – Apresentação do CSA e Roda de Conversa sobre Economia Solidária
17 h – Feira de Trocas de roupas, sementes, artes, objetos, mudas…
18 h – Jam Session – Traga seu instrumento!

Apareçam!!!

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Uma comunidade que sustenta a agricultura local

Produtos da cesta desta semana

Brócolis, abóbora, alface, pão integral, mussarela de búfala e batata foram alguns dos produtos entregues pela família do Marcelo no CSA dessa semana. Mas o que é mesmo esse tal de CSA?

A sigla significa Comunidade que Sustenta a Agricultura. É uma rede de consumidores de produtos orgânicos e biodinâmicos comprados diretamente de famílias agricultoras, estimulando a agroecologia e a agricultura familiar da região. Assim, todos saem ganhando, a família agricultora que terá mercado garantido e as famílias consumidoras que conseguem adquirir produtos de qualidade a um preço acessível, já que não há atravessadores nessa relação. Cada conjunto de produtores e consumidores forma um núcleo de CSA. Juntos os núcleos formam redes de produtores e consumidores.

Esta rede formada se compromete em participar de atividades na área onde seus alimentos são produzidos. Assim, se estabelecem outras relações para além das de mercado, pois são criados laços de afeto e amizade e os alimentos se tornam promotores de cura, de vínculos comunitários e de transformação social!

Um bom exemplo disso aconteceu este final de semana, na propriedade do Marcelo. Todos os consumidores do Núcleo Botucatu – Demétria foram convidados a participar de um dia de campo sobre Preparado Biodinâmico. Trinta pessoas compareceram e trocaram experiências. Elas vieram de Bauru, Ourinhos e de Botucatu. Todos ajudaram na prática agrícola e fortaleceram o vínculo com a família produtora, se tornando, assim, co-agricultores conscientes do processo produtivo que gera os alimentos que chegam em suas casas.

São pequenos passos como esse que podem mudar o mundo! Comece você também essa transformação dentro e fora de você!

Para saber mais e fazer parte desta rede, fale com o Instituto Giramundo pelo telefone (14) 3354 7868 ou através do equipe@mutuando.org.br.

SAIBA COMO FUNCIONA O NÚCLEO DE CSA – GIRAMUNDO

A nossa oferta inclui hortaliças e frutas, queijo de búfala e pão!! Recebemos os alimentos uma vez por semana! Você pode escolher por assinar uma, duas ou três cotas mensais. Assinando a/s cota/s você retira uma cesta semanal.

Valores das cotas mensais:        

Verduras, legumes e frutas (7 itens) R$ 72
Queijo R$ 55
Pão R$ 33

Valores válidos até fevereiro de 2015.

Os alimentos deverão ser retirados semanalmente no Instituto Giramundo às quartas-feiras das 9:30h às 13h  na Rua Cardoso de Almeida, 1207 -  Centro.

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MULHERES AGRICULTORAS PROTAGONIZAM CAPACITAÇÃO SOBRE SISTEMAS AGROFLORESTAIS

 

Por Clara Camargo, do Instituto Giramundo Mutuando - Nos dias 27 e 28 de maio de 2014, ocorreu em Itapeva – SP, o curso de formação em Sistemas Agroflorestais, realizado pela COOPLANTAS – Cooperativa de Plantas Medicinais  no âmbito do projeto Arranjos Produtivos Locais – Fitoterápicos no SUS. O Curso teve a assessoria do Instituto Giramundo Mutuando, parceira da Cooperativa. Este projeto tem por objetivo apoiar a estruturação, consolidação e o fortalecimento dos arranjos produtivo locais de plantas medicinais e fitoterápicas, como um dos eixos de atuação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicas (PNMF).

As comunidades beneficiárias do projeto, que já produzem plantas medicinais e estão agora se organizando para fornecer para o Sistema Único de Saúde, conformam a Cooplantas (uma cooperativa de mulheres assentadas no Assentamento Rural Pirituba II em Itapeva e Itaberá – SP) e o Quilombo do Jaó.

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SOCIEDADE CIVIL LATINOAMERICANA SE REUNIRÁ PARA DEBATER INCIDÊNCIA POLÍTICA NO PÓS 2015 NA ONU

O evento, organizado pela  Coalición de los Pueblos por la Soberanía Alimentaria, Construyendo Puentes, IBON Internacional, GCAP, el Grupo de Trabajo de Cambio Climático y Justicia de Bolivia y la Campaña por los Objetivos de los Pueblos, será realizado no próximo dia 8 a 11 de Julho em Bogotá, Colômbia. O evento debaterá, entre Organizações, Movimentos e Redes Latinoamericanas e do Caribe, questão da Incidência e Ação Territorial em direção ao Post-2015. Um dos espaços mais importante para esta incidência será a próxima reunião da ONU sobre Mudanças Climáticas a se realizar no Peru no final deste ano. Para o Instituto Giramundo Mutuando, os movimentos camponeses e redes de articulação e apoio precisam participar mais neste debate e buscar, em suas negociações com os governos, mais transparência e participação nas discussões nacionais e regionais sobre o Pós 2015. A questão da Soberania Alimentar, via movimentos camponeses e agroecologia, está patada na Campanha dos Objetivo os Povos para o Desenvolvimento Sustentável http://peoplesgoals.org/  .

Para a Campanha, são fundamentais os seguinte objetivos: 1.      Direitos humanos; 2.      Pobreza e Desigualdades; 3.      Soberania Alimentar; 4.      O pleno emprego e trabalho decente; 5.      Proteção social universal; 6.      Justiça de Gênero; 7.      A justiça climática e sustentabilidade ambiental; 8.      Um novo comércio e arquitetura monetária e financeira; 9.      Democracia e boa governança; 10.  A paz e a segurança com base na justiça. Para detalhes de cada objetivo, segue a tradução do texto resumido da Campanha dos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento Sustentável . 


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